segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os cães: guardiões de nossas vidas. Uma entrevista com o professor Eckhart Tolle.



Repórter (R): Olhando para Maya agora, ela está sentada e brincando com seu brinquedo. Eu acredito que é um perfeito exemplo da vivência “no agora” no presente momento. Você pode nos dar algum outro exemplo relacionado à vivência canina?
Eckhart Tolle (ET): Simplesmente veja um cão sem nenhum tipo de comentário mental, perceba apenas que existe um link. Algo muito importante para algumas pessoas é que os cães realizam, conscientemente ou inconscientemente, que eles não estão nos julgando. Para algumas pessoas, isso é apenas um relacionamento que eles têm, onde não existe medo e onde eles acreditam que sua vivência é aceita e não julgada. Para algumas pessoas isso é o único relacionamento que elas têm com outro vivente. É uma pena, porque elas deveriam realmente ter um relacionamento profundo com humanos também, mas isso é difícil porque cada humano tem sua mente, eles julgam e podem se tornar pessoas medrosas, eles se afastam, colocam barreiras, obstáculos. Eu acredito que os cachorros estão mantendo milhões de pessoas sãs, pessoas que eram profundamente neuróticas, que viviam alienadas no mundo. Então, um cão pode fazer você alcançar um outro mundo, uma outra dimensão, no mais profundo sentido. Você pode olhar dentro do olho de um cão e o verá bem profundamente. Alguns professores dizem que os cães são ou têm uma faísca, um pedacinho de Deus, uma porção de divindade. Você pode encontrar isso mais claramente nos cães que nos humanos porque os humanos têm um véu sobre a mente, têm emoções negativas, têm ego e representam papéis. Eu acredito que os cães têm uma função vital para a humanidade. Eu posso chamá-los de “Os guardiões da vida humana”. Eles nos mostram que, se estamos meio perdidos, eles podem nos ajudar. É claro que não quero que tenhamos um relacionamento apenas com cães, mas eles podem nos ajudar a manter bons relacionamentos com pessoas.
R: Isso é muito bom. No seu livro, você diz que vivemos numa sociedade baseada no medo e que isso, queira ou não, vem mostrar como você honestamente sente sobre isso. Ama-se, mas talvez não se tem esse amor de volta. Isso faz com que as pessoas tenham medo de demonstrar seu amor aos outros.
ET: Sim, é maravilhoso perceber isso. Quando eu ando com Maya, as pessoas se aproximam e imediatamente abrem seus corações, eles não olham para mim, eles olham para Maya, eles a afagam. Eles não se atrevem a fazer isso pra mim uma vez que eu fico bem quieto. (risos)
R: Você tem Maya há três anos. Como ela afeta sua vida e seus ensinamentos?
ET: Antes da chegada dela, eu não saía daqui, não ia até o próximo edifício. Agora eu saio com ela todo dia, e eu sei que isso é bom para meu corpo e para a minha alma.
R: A que você atribui essa crescente popularidade dos cães?
ET: Por causa da alienação da sociedade moderna e da necessidade dos humanos de manter um relacionamento profundo com outro ser, além da incapacidade deles fazerem isso com outro humano. Eu espero que isso mude, entretanto os cães oferecem um coração aberto em direção a outro ser. Eles são abeis para mostrar amor a outro ser, sempre e reciprocamente. Por isso que eu penso que os cães têm uma função absolutamente vital, eles mantêm a humanidade sã nesse transitório período de consciência.
R: Você iniciou seu livro com o capítulo “Vocês são um propósito divino do universo”. Isso é muito importante. Você acha que eles estão aqui por um motivo bom, para nos ajudar na nossa jornada?
ET: Eles têm a função divina de ajudar as pessoas. É por isso que eles vivem intimamente com os humanos. Eles convivem com os humanos há milhares de anos, mas agora há uma ligação entre os homens e os cães mais íntima do que nunca. Por isso, o motivo da existência deles é nos ajudar. Por viver conosco, a consciência deles aumentou e isso é recíproco. Eles estão nos socorrendo, eles também socorrem a coletividade, isso é a “consciência canina”. As duas espécies são partes da evolução da consciência nossa e dos cães. Eles são uma diferente forma da evolução da consciência, por isso eles têm um motivo para estar no nosso universo. Eles nos mostram que, quando estamos meio perdidos, quando você percebe isso, eles podem nos ajudar a nos encontar.
Lições para se aprender a partir de um cão – Eckhart Tolle em Vivendo no agora
Há vários portões por onde você pode adentrar no AGORA. Um portão pode se tornar cheio de energia do seu corpo se você sentar aqui. Você sentirá a vida nas suas mãos, nos seus braços e nas suas pernas, por todo o seu corpo. Haverá pessoas que não sentirão isso por não terem nada em suas cabeças. Todas as atenções delas estão voltadas para os pensamentos delas e elas não estão presentes aqui, agora. Então você pode usar esse portal, essa vivência do interior do seu corpo. Você pode usar o senso de percepção, ver árvores naturais, ou animais, ou seu cão. Apenas atente para seu cão, brincando, descansando, brincando com outro cão, você pode aprender a viver esse presente a partir de um animal. Teu cão pode te ensinar a viver o presente porque ele sempre está preparado para celebrar a vida a qualquer momento e agora. O cão está NO AGORA e ele pode ensinar isso a você. Quando você está carregado de problemas, olhe para seu cão e perceba como ele está preparado para viver a vida. Questione-se se você está amigável no momento presente ou se você está fazendo aquele momento ser um obstáculo, um inimigo. Se você está novamente querendo sair correndo por aí, estressado, ansioso, se sente culpado ou ressentido, com tudo isso ao seu redor, isso tudo está no passado, você tem uma carga boa no futuro mas não pode controlá-la, então você precisa vir para o presente e se transformar em alguém consciente. “Vir para o agora” é impactante para alguns porque elas não percebem que podem estar no presente e simplificar profundamente suas vidas e torná-las mais feliz. Os cães podem nos mostrar que estamos perdidos no tempo e podem nos ajudar a encontrar o presente, num perfeito e profundo estado de consciência.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mais perto da vacina contra dengue


Começa a ser testada no País substância imunizante contra os quatro tipos da doença, que continua crescendo a cada ano.
Rachel Costa

Pela primeira vez, 150 voluntários com idade entre 9 e 16 anos selecionados na cidade de Vitória, no Espírito Santo, receberão doses de uma vacina experimental contra a dengue. O estudo é conduzido pelo laboratório Sanofi Pasteur e está em andamento em mais 13 países, entre eles Uruguai, Argentina, México e Tailândia, que foi o berço do produto. Em vários desses locais, a vacina também está sendo testada em adultos. Porém a opção feita no Brasil de concentrar o ensaio em crianças se justifica pelo aumento do número de casos da infecção em pessoas com menos de 15 anos que vem sendo verificado desde 2006. De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente essa população representa 25% do total dos casos – há dez anos esse índice era de apenas 2%.

O novo imunizante será aplicado em três doses, com intervalos de seis meses entre elas. “A solução combina fragmentos de quatro tipos diferentes do vírus da dengue com uma forma atenuada da vacina da febre amarela”, informa Reynaldo Dietze, coordenador dos testes no Brasil e diretor do Núcleo de Doenças Infecciosas da Universidade.
De fato, a imunização é um passo essencial para conter a expansão da doença. Até agora, as medidas focadas no controle do vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti, têm se revelado ineficientes. As estatísticas do Ministério da Saúde indicam que, no primeiro semestre deste ano, foram confirmados quase 500 mil casos da doença, número 58% maior que o registrado no mesmo período do ano passado. Esse crescimento pode ser ainda mais acentuado se também se confirmarem outros 300 mil casos que estão em investigação. Neste caso, terá ocorrido uma elevação de 159%. Além disso, está aumentando a quantidade de internações. “A dengue não é mais um problema em que matar o mosquito resolve. Por isso, a única solução definitiva é a vacina”, considera o cientista Isaias Raw, presidente do conselho de pesquisa e desenvolvimento da Fundação Butantan.

No mundo, mais quatro grupos estudam imunizantes contra a moléstia. Um deles atua em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Outro, o poderoso Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, trabalha em conjunto com o Instituto Butantan, de São Paulo, em uma vacina feita com tecnologia que usa cópias de um vírus da dengue alterado geneticamente pelos cientistas. “Iniciaremos os testes no Brasil no primeiro trimestre de 2011”, anuncia Raw. A estimativa do Ministério da Saúde é de que algum desses fármacos esteja aprovado e possa ser usado em larga escala na população até 2015.

Revista ISTO É nº 2133,
de 29 de setembro de 2010.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Devagar, divagar


Calma. Viver é devagar. Uma pessoa leva nove meses para nascer, um ano para andar e ganhar dentes, dois anos para falar, seis para ler, dezoito anos de escola para se formar, trinta anos para ficar maduro, noventa anos para morrer. Para que a pressa? Não se estresse. “Apressa-te devagar”, aconselhava o historiador romano Suetônio ao imperador Adriano.

Por que têm pressa os que têm pressa?
A pressa é um perigo. Acontecem 700 acidentes por dia nas rodovias brasileiras, 42 000 pessoas morrem anualmente em acidentes de trânsito, 24 000 só nas estradas. Por que a pressa? As cidades estão lá à espera no término da viagem, as praias estão lá, os hotéis, os parentes, os amigos, nada vai sair do lugar, mas todos têm pressa. Parecem fugir dos quilômetros. “Não há nada que se possa fazer com pressa e prudência ao mesmo tempo”, ensinava o latino Publilio Siro, 2 000 anos antes da invenção do automóvel.

A pressa para ganhar dinheiro amolece a moral, favorece o crime, a corrupção, a bajulação, o carreirismo, a passada de perna. Na última década do século passado, começou a circular, com o peso de um salmo bíblico, a nova mensagem aos jovens: aquele que não ganhar seu primeiro milhão antes dos 30 anos será um perdedor. A pressa entrou em cena nos escritórios, vieram os atropelamentos nos corredores das empresas. Como diz o delinquente do filme 'Notícias de uma Guerra Particular', sobre um par de tênis que viu alguém usando e o qual não podia comprar: “Eu vou pegar, brother”; o jovem da classe média diz sobre o milhão que outros têm: “Eu vou pegar o meu, cara”.

Também no amor a pressa não resulta em grande coisa. A pressa dos conquistadores assusta a presa. A dos ansiosos provoca fracasso na hora H. A dos imprevidentes termina em gravidez. A dos maridos dá origem a mulheres insatisfeitas. A das esposas encoraja adúlteros. A dos namorados os acostuma à falta de capricho no amor. A dos solteirões produz velhos solitários, que não atentaram, enquanto era tempo, para um conselho de avô: “Fuja das mulheres, mas devagar, para que elas possam alcançá-lo”.
Pressa para fazer um trabalho não dá certo. O oleiro sabe que não adianta apressar o barro. Uma mesa benfeita, uma cirurgia precisa, uma casa bem construída, um sapato confortável, uma estrada segura — tudo tem seu tempo, e não é o dos apressados. Lembram-se da cratera da Linha 4 do Metrô de São Paulo? Viram o absurdo urbano do Minhocão? Viram a trapalhada do Plano Collor? “A pressa é o ritmo dos trapalhões”, diz o escritor americano Ambrose Bierce. O povo sempre soube disso, ao criar ditados como “A pressa é inimiga da perfeição”, “Roma não se fez num dia”, “Devagar se vai longe”. Gasta-se tempo fazendo, e outro tanto refazendo. Vamos, pois, desacelerar, ouvindo o que diz um escritor de prosa saborosa, o londrino G.K. Chesterton: “Uma das grandes desvantagens da pressa é o tempo que ela nos faz perder”.

A pressa na arte resulta em obras sem arte. Que de mais grandioso existe entre as obras de arte coletivas do que as catedrais, como as de Paris, Colônia, Milão, Reims e outras? Levaram cinco, seis séculos para ficar prontas. O pior que se pode dizer de um romance, de uma mostra de pintura, de um concerto, de um espetáculo teatral é que são apressados. Arte é concepção, realização e acabamento. E isso toma tempo, tempo de criar, corrigir, aparar, avaliar, polir. Quinhentos anos antes de Cristo o sábio chinês Confúcio ensinava: “Coisa feita com pressa é coisa malfeita”. Viver é divagar.
Por Ivan Ângelo – 21/07/2010

sábado, 10 de julho de 2010

Ser transparente


Às vezes, fico me perguntando por que é tão difícil ser transparente...

Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros.

Mas ser transparente é muito mais do que isso.

É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que sente...

Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir muros...

Ser transparente é permitir que a doçura aflore, transborde...

Mas, infelizmente, a maioria decide não correr esse risco.

Preferimos a dureza da razão à leveza reveladora da fragilidade humana.

Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam da alma...

Preferimos nos perder numa busca por respostas a simplesmente admitir que não sabemos nada e que temos medo!

Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção.

E assim, vamos nos afundando em falsas palavras, atitudes, em falsos sentimentos...

Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar...

A doçura, a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós...

Uma saudade desesperada de nós mesmos, daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar...

Porque aprendemos que isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro!

Quando, na verdade, agir com o coração, poupa a dor...

Sugiro que deixemos explodir toda a doçura!

Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencíveis!

Chega de tentar controlar tanto...
Responder tanto...
Competir tanto...
Tente simplesmente viver, sentir e amar.

por Rosana Braga

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Diversão X trabalho


Empresa não pode descontar hora de funcionário liberado para ver a Copa.
Desconto só pode acontecer caso haja prévio acordo entre as duas partes.
Empregador, porém, tem todo o direito de não liberar o funcionário.


As empresas não podem descontar as horas dos funcionários que forem liberados para assistir aos jogos da Copa, a não ser que haja acordo ou contrato prévio sobre o assunto, afirmam advogados. Segundo os especialistas, as empresas têm, contudo, todo o direito de impedir que os funcionários assistam às partidas do mundial e continuem trabalhando.

De acordo com o advogado Marcos César Amador Alves, o desconto das horas de trabalho não pode acontecer quando a empresa tratar o assunto como uma “liberalidade”, ou seja, dispensar a todos como um benefício. Por outro lado, é possível que empresas façam acordos prévios com os trabalhadores e optem por liberá-los desde que as horas sejam compensadas mas, nesse caso, o profissional precisa ser avisado que isso ocorrerá.

Leandro Antunes, professor de direito do trabalho da Academia Brasileira de Educação, Cultura e Empregabilidade (Abece), afirma que o funcionário pode se dar mal caso opte por faltar no dia do jogo, no caso de a empregadora não liberá-lo para ver a partida.

De acordo com Antunes, o trabalhador que faltar sem justificativa ao trabalho pode receber advertências. Se persistirem as faltas, o empregador pode aplicar a suspensão e, caso o profissional continue faltando, ele poderá ser despedido por justa causa. O advogado Alan Balaban Sasson lembra, porém, que a advertência tem de ser imediata, no dia seguinte ao da falta.

Além das advertências e punições, aquele que faltar poderá ter as horas descontadas do salário no final do mês, explicam os advogados.

Não liberar todos
De acordo com os especialistas, os empregadores até podem optar por liberar alguns funcionários para assistir aos jogos e outros não, desde que o ato não seja discriminatório, sem uma justificativa plausível.

“É uma questão de bom senso e depende do cargo do trabalhador, como um médico de plantão, por exemplo”, afirma Sasson.

Se o funcionário se sentir discriminado na divisão de quem folga e de quem trabalha, é possível entrar com uma ação na Justiça por discriminação, caso haja de fato o ato discriminatório, afirmam os advogados.
Jornal O Movimento, 19 de maio de 2010.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dengue: omissão e descaso


Fingir que se faz saúde pública nunca deu certo.
A história se repete, a epidemia se repete, no seu ritmo e de acordo com os anos e suas estações. As ações preventivas, para mudar seu rumo, se realizadas em momentos oportunos poderiam minorar os sofrimentos e as mortes de cidadãos.
Revendo notícias dos estragos de 2008, principalmente no Rio de Janeiro, encontramos uma cidade que não levou a sério a prevenção, fingiu que investiu em saúde pública e pediu água ao Exército. Deixou o inimigo tomar conta, invadir seu território e pediu socorro, instalando tendas chamadas de hospitais de campanha, como se estivéssemos no front de uma batalha. Foi o reconhecimento de sua inépcia e descaso com a saúde.
Lá, como aqui e também em Campo Grande onde uma epidemia desafiou a cidade, as equipes de prevenção, agindo de um ano para outro, estavam desfalcadas ou não existiam. Treinamentos, equipes de saúde da família, visitando casas o ano todo, equipes de combate aos vetores, levando a população a ser parceira sempre, não estão entre as prioridades de quem se preocupa com a doença e se esquece da saúde e não entende ou não quer entender que prevenir é melhor que remediar.
Com tecnologias importadas do primeiro mundo não conseguimos combater epidemias nem do terceiro. Queremos instalar aparelhos caros, nem que seja para eles não funcionarem por falta de pessoal capacitado. Uma minoria poderá talvez usá-los e as compras poderão render vantagens para muitos. Sabe-se lá!...
Com a mídia boquiaberta, disposta a tecer elogios a qualquer preço, homens públicos investem em seus monumentos, nas pinturas de guias e sarjetas, fazendo pirotecnia com dinheiro público seja ele municipal, estadual ou federal. Surgem siglas, surgem projetos, nunca discutidos pelos interessados, de prioridades duvidosas.
E as epidemias estão de volta, são cíclicas, seguindo seu próprio destino. No final da estação chuvosa, com a chegada do frio, a dengue tende a se despedir até o próximo ano. Alguém sugere medidas definitivas. Vou matar os insetos que estão voando e por sete a dez dias ficamos protegidos e talvez com nossas alergias pioradas, e vemos a fumaça enganosa chamando as atenções, e os mal informados junto com os bem informados de má fé, elogiando e batendo palmas.
A porta arrombada, o ladrão já tomou cafezinho, escolheu o que desejava levar, agora vou comprar cadeados, vou contratar alguns funcionários por alguns dias e ninguém poderá dizer que não corri atrás do ladrão. Daqui a pouco os homens são dispensados até a história se repetir no próximo ano.
A dengue já é antiga, sabemos como ela se comporta. Há recursos que são até desperdiçados e mal aplicados. Vivemos de surtos e de sustos, não temos a coragem suficiente para fazer direitinho a lição de casa com quem sabe o caminho das pedras e poderia ajudar se fosse respeitado e ouvido e consultado na hora certa. As equipes exigem respeito e humildade para serem eficientes. Talvez seja o que falta por nossos sertões próximos ou distantes.
JOSÉ ANÉSIO PALAVÉRI
MÉDICO, escritor e membro da Aplace

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Deixe sua marca


É curioso observar como a vida nos oferece resposta para os mais variados questionamentos do cotidiano.
Vejamos.
A mais longa caminhada só é possível passo a passo.
O mais belo livro do mundo foi escrito letra por letra.
Os milênios se sucedem segundo a segundo.
As mais violentas cachoeiras se formam de pequenas fontes.
A imponência do pinheiro e a beleza do ipê começaram, ambas, na simplicidade das sementes.
Não fosse a gota, não haveria chuvas.
O mais belo ninho foi feito de pequenos gravetos.
A mais bela construção não se teria realizado senão a partir do primeiro tijolo.
As imensas dunas se compõem de minúsculos grãos de areia.
Como já refere o adágio popular: nos menores frascos se guardam as melhores fragrâncias.
É quase incrível imaginar que apenas sete notas musicais tenham dado vida à "Ave Maria“, de Bach, e à "Aleluia“, de Händel.
O brilhantismo de Einstein e a ternura de Tereza de Calcutá tiveram que estagiar no período fetal, e nem mesmo Jesus, expressão maior do amor, dispensou a fragilidade do berço.
Assim, também o mundo de paz, harmonia e concórdia com que tanto sonhamos só será construído a partir de pequenos gestos de compreensão, de solidariedade, de respeito, de ternura, de fraternidade, de benevolência, de indulgência e de perdão.
Ninguém pode mudar o mundo, mas podemos mudar uma pequena parcela dele; esta parcela que chamamos de “eu".
Não é fácil, nem rápido, mas vale a pena tentar.
Ajude o mundo, deixe sua marca.
Alexandre Garcia

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Fui prostituta na terra dos samurais


Não deixarei de ser o que fui para sobreviver. Tudo está cravado em meu coração, tatuado em minha alma, lembrado; em todos os pensamentos que tenho e que terei em todo o resto da minha vida. O ato em si pode não acontecer. Eu posso perfeitamente morrer, mas eu continuarei sendo o que de pior a vida me obrigou a fazer. Eu sempre estarei nas esquinas da vida esperando alguém gozar em mim. Sempre estarei esperando o dia da ressurreição de minha alma que morreu, quando me obrigaram ser prostituta na terra dos samurais.

Naquelas ruas de primeiro mundo, vi pessoas esfaqueadas, gente se drogando, traficantes negociando, polícia grampeando quem bobeava, mãe desesperada procurando o filho, travestis disputando ponto com as prostitutas, japonesas farejando estrangeiros em nome do sexo, sexo explícito com direito a chicotada e tortura, exploração sexual de todas as formas, jovens dominados pela droga, mendigos estrebuchando de frio, de fome; empresários que guardavam seus paletós para realizar suas fantasias sexuais vestindo-se de uniforme escolar feminino, adolescentes que se prostituíam para ter um aparelho celular novo, roupas e acessórios de grife; donas de casa que deixavam os filhos com a vizinha para ir às ruas de Tókio disputar cliente com quem era prostituta por obrigação; gays que passeavam algemados ao companheiro pelas ruas, prostitutas vindas dos quatro cantos do mundo. Africanas, brasileiras, filipinas, tailandesas, americanas, inglesas, italianas, polonesas, colombianas, peruanas, chilenas, coreanas. Além das japonesas que encaravam aquela vida podre com muita delicadeza. E eu no meio, brigando por um espaço para ser comida de gente. O cenário era assustador tendo como expectador, o diabo.

O primeiro programa que fiz, quase morri. Não foi fácil trocar pureza pela malícia imunda. O sujeito chegou, pediu que eu cuspisse em sua mão. Com a gosma se masturbou, gozou. Pagou e foi embora. Ali vomitei, enojada do ato e da situação. Daquela hora em diante eu ganhava o título de prostituta. E eu ainda era virgem. Inocente da imoralidade do mundo, vítima de um sonho, ser modelo. - desabafou Cristal.

Cada uma tinha sua história. Eu também tinha a minha. Cada vez que eu ouvia seus relatos, um desespero incompreendido tomava conta da minha alma. Eu tinha acabado de fazer parte do sistema, mas não pretendia ficar muito tempo.

– Aqui não temos controle sobre nossas vidas. Ou você aceita as regras, ou vai sofrer muito. Quem sabe até desaparecer do mapa sem deixar vestígio. Se é que você me entende.

Era inverno. O frio estremecia meu corpo e a tristeza congelava meu coração. Eu sonhava ardentemente que um guerreiro samurai aparecesse e, com sua espada afiada, decepasse todas as minhas angústias e limpasse da minha vida todos os atos de depravações que eu cometia sem querer. Minhas colegas sonhavam com príncipes. Mas eles são frágeis. Só um herói armado de bravura e sabedoria podia vencer todos os inimigos num campo de batalha onde os oponentes eram senhores com recurso suficiente a bancar qualquer preço pela mercadoria desejada. Não, um príncipe jamais teria estrutura para tirar-me daquele cárcere. Mas enquanto meu ágil herói não chegava, ali era meu lugar. Aquele era meu trabalho. Aquela era minha sina. Aquela era minha estrela, caída em qualquer lugar do oceano.

Eu não tinha lugar certo para ficar, perambulava a cidade de Tókio querendo assim, disfarçar meu ofício. As companheiras de rua riam dessa atitude e eu ficava profundamente deprimida.

– Não adianta querer disfarçar. – disse uma delas e prosseguiu entremeando palavras entre uma tragada e outra do seu baseado de haxixe. – O que somos está grudado na alma; onde quer que você vá, levará esse coágulo que tanto machuca nossos corações. Como uma doença maligna que vai desidratando tudo de bom que um dia nós tivemos, matando qualquer esperança em nossas vidas. Estamos num país de primeiro mundo. Mas como espécie de última qualidade. Não temos visto, não temos casa, não temos respeito, perdemos a dignidade, vivemos fugindo até de nós mesmas. Ao mesmo tempo, presas nesse açougue imundo, onde o sujeito escolhe a carne que quer comer em seguida vomita tudo que comeu numa delicadeza digna dos demônios. Limpar, você não consegue. – finalizou, soltando uma gargalhada molhada pelas lágrimas que escorriam de seus olhos azuis.

– Não te entendo! – disse-lhe.


Bianca Aguillara é brasileira do Pará. Foi para o Japão com o marido para investigar a fundo a prostituição daquele país. Viveu nesse mundo e escreveu “Fui Prostituta na Terra dos Samurais”, lançado pela Editora Interage.
Ela viveu a realidade do submundo do Japão para contar em seu livro o que ninguém sequer imagina que acontece nas noites japonesas, uma grotesca mistura de sexo, drogas e violência.
Durante quatro anos de pesquisa, Bianca foi obrigada a fazer parte daquela triste realidade, caso contrário, não seria aceita. Ali, encontrou garotas e garotos de toda parte do mundo que foram para lá atrás do sonho de se tornarem modelos e acabaram indo trabalhar como acompanhantes, passando a viver nas mãos de cafetões, que tem acima deles a famosa máfia japonesa, onde quem não segue as ordens, simplesmente desaparece.
Bianca resolveu encarar tudo isso para mostrar a todos uma realidade que poucos imaginam existir, viu homens casados e com filhos saírem à noite para se prostituir travestidos, tendo as drogas como parceiras, que eles e elas consomem para conseguir aguentar as situações mais humilhantes como jogos macabros, onde para satisfazer os parceiros, tem seus corpos queimados e marcados a ferro como gado!
O livro é fruto de um sofrimento absoluto vivido nas ruas do Japão. Quando me propus a pesquisar os segredos das noites japonesas, eu jamais poderia imaginar que naquele país calmo, de pessoas serenas, pudesse existir tanta perversidade. São revelações estarrecedoras que mudaram, mudam e mudarão o cenário dessa ilha conhecida mundialmente por sua cultura milenar e mostra o que existe atrás dos bastidores.” Conta a autora.

Essa e outras histórias surpreendentes desse submundo são contadas no livro, que ela acaba de lançar e que pode ser encontrado nas principais livrarias do Brasil. Eu comprei meu exemplar pela internet, no site da Livraria Galileu. Boa leitura!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Agradecer a nova vida


Eis que aponta um novo dia! Quanta alegria! Quanta graça divina! Agradeço profundamente a Deus, como também a todas as coisas do universo. Desperto ou adormecido, eu não poderia viver um minuto sequer se não houvesse a proteção de Deus. A luz do sol, a água, os alimentos, tudo vem de Deus, que me sustenta e que continuará sustentando-me sempre. Neste início de um novo ano, agradeço a proteção que recebi até agora e, desejando que neste ano também seja abundante a Sua proteção, prometo retribuir as graças recebidas, dedicando-me de corpo e alma à realização da missão a mim atribuída por Deus.
Despertei agora para esta verdade, isto é, renasci! Nasci para uma nova vida! É o raiar de um novo dia! O passado já se foi, e todas as pessoas se preenchem de nova alegria e cantam hinos de louvor a Deus. Resplandece a luz da verdade, e doravante não haverá quem se lamente; desaparecerão deste mundo os gemidos e os gritos de dor; e todos se dirigirão para Deus e cantarão a música de agradecimento. Esta música se eleva até ao céu e se torna música celestial; desce à Terra e se torna música da paz. Em verdade, em verdade, agora renasci e despertei para a verdade, vejo que o paraíso da realidade eterna existe aqui mesmo. Neste momento reverencio a Deus e Lhe consagro o hino de alegria. Respeitosamente junto as mãos e curvo-me diante do Onipotente. Muito obrigado!

A verdade em orações, página 17, Masaharu Taniguchi.