
Não deixarei de ser o que fui para sobreviver. Tudo está cravado em meu coração, tatuado em minha alma, lembrado; em todos os pensamentos que tenho e que terei em todo o resto da minha vida. O ato em si pode não acontecer. Eu posso perfeitamente morrer, mas eu continuarei sendo o que de pior a vida me obrigou a fazer. Eu sempre estarei nas esquinas da vida esperando alguém gozar em mim. Sempre estarei esperando o dia da ressurreição de minha alma que morreu, quando me obrigaram ser prostituta na terra dos samurais.
Naquelas ruas de primeiro mundo, vi pessoas esfaqueadas, gente se drogando, traficantes negociando, polícia grampeando quem bobeava, mãe desesperada procurando o filho, travestis disputando ponto com as prostitutas, japonesas farejando estrangeiros em nome do sexo, sexo explícito com direito a chicotada e tortura, exploração sexual de todas as formas, jovens dominados pela droga, mendigos estrebuchando de frio, de fome; empresários que guardavam seus paletós para realizar suas fantasias sexuais vestindo-se de uniforme escolar feminino, adolescentes que se prostituíam para ter um aparelho celular novo, roupas e acessórios de grife; donas de casa que deixavam os filhos com a vizinha para ir às ruas de Tókio disputar cliente com quem era prostituta por obrigação; gays que passeavam algemados ao companheiro pelas ruas, prostitutas vindas dos quatro cantos do mundo. Africanas, brasileiras, filipinas, tailandesas, americanas, inglesas, italianas, polonesas, colombianas, peruanas, chilenas, coreanas. Além das japonesas que encaravam aquela vida podre com muita delicadeza. E eu no meio, brigando por um espaço para ser comida de gente. O cenário era assustador tendo como expectador, o diabo.
O primeiro programa que fiz, quase morri. Não foi fácil trocar pureza pela malícia imunda. O sujeito chegou, pediu que eu cuspisse em sua mão. Com a gosma se masturbou, gozou. Pagou e foi embora. Ali vomitei, enojada do ato e da situação. Daquela hora em diante eu ganhava o título de prostituta. E eu ainda era virgem. Inocente da imoralidade do mundo, vítima de um sonho, ser modelo. - desabafou Cristal.
Cada uma tinha sua história. Eu também tinha a minha. Cada vez que eu ouvia seus relatos, um desespero incompreendido tomava conta da minha alma. Eu tinha acabado de fazer parte do sistema, mas não pretendia ficar muito tempo.
– Aqui não temos controle sobre nossas vidas. Ou você aceita as regras, ou vai sofrer muito. Quem sabe até desaparecer do mapa sem deixar vestígio. Se é que você me entende.
Era inverno. O frio estremecia meu corpo e a tristeza congelava meu coração. Eu sonhava ardentemente que um guerreiro samurai aparecesse e, com sua espada afiada, decepasse todas as minhas angústias e limpasse da minha vida todos os atos de depravações que eu cometia sem querer. Minhas colegas sonhavam com príncipes. Mas eles são frágeis. Só um herói armado de bravura e sabedoria podia vencer todos os inimigos num campo de batalha onde os oponentes eram senhores com recurso suficiente a bancar qualquer preço pela mercadoria desejada. Não, um príncipe jamais teria estrutura para tirar-me daquele cárcere. Mas enquanto meu ágil herói não chegava, ali era meu lugar. Aquele era meu trabalho. Aquela era minha sina. Aquela era minha estrela, caída em qualquer lugar do oceano.
Eu não tinha lugar certo para ficar, perambulava a cidade de Tókio querendo assim, disfarçar meu ofício. As companheiras de rua riam dessa atitude e eu ficava profundamente deprimida.
– Não adianta querer disfarçar. – disse uma delas e prosseguiu entremeando palavras entre uma tragada e outra do seu baseado de haxixe. – O que somos está grudado na alma; onde quer que você vá, levará esse coágulo que tanto machuca nossos corações. Como uma doença maligna que vai desidratando tudo de bom que um dia nós tivemos, matando qualquer esperança em nossas vidas. Estamos num país de primeiro mundo. Mas como espécie de última qualidade. Não temos visto, não temos casa, não temos respeito, perdemos a dignidade, vivemos fugindo até de nós mesmas. Ao mesmo tempo, presas nesse açougue imundo, onde o sujeito escolhe a carne que quer comer em seguida vomita tudo que comeu numa delicadeza digna dos demônios. Limpar, você não consegue. – finalizou, soltando uma gargalhada molhada pelas lágrimas que escorriam de seus olhos azuis.
– Não te entendo! – disse-lhe.
Bianca Aguillara é brasileira do Pará. Foi para o Japão com o marido para investigar a fundo a prostituição daquele país. Viveu nesse mundo e escreveu “Fui Prostituta na Terra dos Samurais”, lançado pela Editora Interage.
Ela viveu a realidade do submundo do Japão para contar em seu livro o que ninguém sequer imagina que acontece nas noites japonesas, uma grotesca mistura de sexo, drogas e violência.
Durante quatro anos de pesquisa, Bianca foi obrigada a fazer parte daquela triste realidade, caso contrário, não seria aceita. Ali, encontrou garotas e garotos de toda parte do mundo que foram para lá atrás do sonho de se tornarem modelos e acabaram indo trabalhar como acompanhantes, passando a viver nas mãos de cafetões, que tem acima deles a famosa máfia japonesa, onde quem não segue as ordens, simplesmente desaparece.
Bianca resolveu encarar tudo isso para mostrar a todos uma realidade que poucos imaginam existir, viu homens casados e com filhos saírem à noite para se prostituir travestidos, tendo as drogas como parceiras, que eles e elas consomem para conseguir aguentar as situações mais humilhantes como jogos macabros, onde para satisfazer os parceiros, tem seus corpos queimados e marcados a ferro como gado!
“O livro é fruto de um sofrimento absoluto vivido nas ruas do Japão. Quando me propus a pesquisar os segredos das noites japonesas, eu jamais poderia imaginar que naquele país calmo, de pessoas serenas, pudesse existir tanta perversidade. São revelações estarrecedoras que mudaram, mudam e mudarão o cenário dessa ilha conhecida mundialmente por sua cultura milenar e mostra o que existe atrás dos bastidores.” Conta a autora.
Essa e outras histórias surpreendentes desse submundo são contadas no livro, que ela acaba de lançar e que pode ser encontrado nas principais livrarias do Brasil. Eu comprei meu exemplar pela internet, no site da Livraria Galileu. Boa leitura!
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