
Fingir que se faz saúde pública nunca deu certo.
A história se repete, a epidemia se repete, no seu ritmo e de acordo com os anos e suas estações. As ações preventivas, para mudar seu rumo, se realizadas em momentos oportunos poderiam minorar os sofrimentos e as mortes de cidadãos.
Revendo notícias dos estragos de 2008, principalmente no Rio de Janeiro, encontramos uma cidade que não levou a sério a prevenção, fingiu que investiu em saúde pública e pediu água ao Exército. Deixou o inimigo tomar conta, invadir seu território e pediu socorro, instalando tendas chamadas de hospitais de campanha, como se estivéssemos no front de uma batalha. Foi o reconhecimento de sua inépcia e descaso com a saúde.
Lá, como aqui e também em Campo Grande onde uma epidemia desafiou a cidade, as equipes de prevenção, agindo de um ano para outro, estavam desfalcadas ou não existiam. Treinamentos, equipes de saúde da família, visitando casas o ano todo, equipes de combate aos vetores, levando a população a ser parceira sempre, não estão entre as prioridades de quem se preocupa com a doença e se esquece da saúde e não entende ou não quer entender que prevenir é melhor que remediar.
Com tecnologias importadas do primeiro mundo não conseguimos combater epidemias nem do terceiro. Queremos instalar aparelhos caros, nem que seja para eles não funcionarem por falta de pessoal capacitado. Uma minoria poderá talvez usá-los e as compras poderão render vantagens para muitos. Sabe-se lá!...
Com a mídia boquiaberta, disposta a tecer elogios a qualquer preço, homens públicos investem em seus monumentos, nas pinturas de guias e sarjetas, fazendo pirotecnia com dinheiro público seja ele municipal, estadual ou federal. Surgem siglas, surgem projetos, nunca discutidos pelos interessados, de prioridades duvidosas.
E as epidemias estão de volta, são cíclicas, seguindo seu próprio destino. No final da estação chuvosa, com a chegada do frio, a dengue tende a se despedir até o próximo ano. Alguém sugere medidas definitivas. Vou matar os insetos que estão voando e por sete a dez dias ficamos protegidos e talvez com nossas alergias pioradas, e vemos a fumaça enganosa chamando as atenções, e os mal informados junto com os bem informados de má fé, elogiando e batendo palmas.
A porta arrombada, o ladrão já tomou cafezinho, escolheu o que desejava levar, agora vou comprar cadeados, vou contratar alguns funcionários por alguns dias e ninguém poderá dizer que não corri atrás do ladrão. Daqui a pouco os homens são dispensados até a história se repetir no próximo ano.
A dengue já é antiga, sabemos como ela se comporta. Há recursos que são até desperdiçados e mal aplicados. Vivemos de surtos e de sustos, não temos a coragem suficiente para fazer direitinho a lição de casa com quem sabe o caminho das pedras e poderia ajudar se fosse respeitado e ouvido e consultado na hora certa. As equipes exigem respeito e humildade para serem eficientes. Talvez seja o que falta por nossos sertões próximos ou distantes.
JOSÉ ANÉSIO PALAVÉRI
MÉDICO, escritor e membro da Aplace
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